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killing me




Me sinto usada
Usada por você e por todos
Estou tentando entender como chegamos até aqui
Mas não consigo ver o final disso
Não consigo esquecer
O tempo está passando
E toda vez que eu vejo você
Toda vez que me falam sobre você
Algo em mim queima
E se quebra
Isso está doendo tanto
Não sei quanto tempo mais posso suportar
E isso é tão estranho porque
Quanto mais me desfaço
Mais percebo que preciso de você
Por que isso é tão difícil?
Eu sinto sua falta
Sinto falta das nossas conversas
Do som das nossas risadas
Das nossas bebedeiras desenfreadas
Sinto falta de tudo, o tempo todo
Não posso mais mentir, não
Me apeguei a você
Sei que estou sempre me esquivando
Mas não de você
Não, não de você
Por que você não se importa?
Eu sei, eu sei
Eu não sou ela
Nunca serei ela
Você nunca precisará de mim
Como precisa dela
E nunca olhará para mim
Como olha pra ela
Eu sei, sei sei
Tudo que posso fazer é observar
Enquanto você a trata como se ela fosse a única no mundo
Ah, você deveria saber
Amigos também podem partir seu coração
O que posso fazer?
Se eu fosse você, nunca me deixaria ir
Mas você não entende
Você não enxerga
Quantas vezes mais você irá ir embora
E depois voltar como se nada tivesse acontecido?
Eu deveria saber
Que quando o respeito e a confiança se vão
É melhor seguir em frente
Oh, mas nós dormimos juntos
Isso não significou nada pra você?
Pra mim, isso foi tudo
Talvez eu devesse acabar logo com isso
Toda essa história está me deixando louca
E nem quando eu me afasto
Adquiro alguma sanidade
Essa sou eu
Sempre sentindo falta de quem não deveria sentir
Nunca controlei meus pensamentos
Não quando se trata de você
Por que você nunca percebe
Que está me matando?
É, eu gostaria de dizer todas essas coisas pra você
Mas toda vez que eu escrevo
Eu apago logo em seguida
Nirvana



Eu posso sentir
o gosto da derrota e da desonestidade
em seu hálito
antes tão doce
agora tão embriagado

Você finge ser um cavalheiro
quer mostrar a todo tempo que se importa
mas tudo o que você faz quando está sozinho comigo
é colocar meus sentimentos em segundo plano
parece que é mais fácil pisar em mim do que encarar nossos problemas

E se isso for um teste?
E se não conseguirmos passar por isso
só porque estamos tão cansados e preocupados
ao mesmo tempo em que estamos conscientes
de que isso é tudo que podemos oferecer um para o outro?

Minhas mãos estão atadas
eu cansei de me rastejar pelas suas migalhas
cansei de me esgueirar dos seus medos
e de me empoleirar em seus muros
eu rezei para você me ouvir e mudar
mas nem isso deu certo

Eu juro que tentei
tentei fazer de você o meu lar
mas portas e janelas nos levaram à armadilhas
as escadas nos levaram para o nada
os quartos se tornaram frios e solitários
para onde eu posso ir agora que estou sozinha?

O passado e o futuro se encontram
as dores são bem mais fortes do que os nossos momentos bons
você deveria saber
que não há nada que doa mais
do que ver o seu sorriso quando você finge que estamos bem
isso não te preocupa?

Eu tentei mudar
tentei ser melhor
fui suave, carinhosa, exemplar
me calei por medo de ser rabugenta
mas nem isso adiantou
o que mais posso fazer?
acho que não é mais uma questão de voltarmos ao nós
e sim uma questão de eu recuperar o meu eu
me diga, o que é pior
eu ser sincera ou ser negligente?
Cidade grande




Eu ando trabalhando demais
é muito para se fazer
em tão pouco tempo

Eu ando apressado demais
é muito para se pensar
em tão pouco tempo

Eu ando ocupado demais
é muita coisa para resolver
em tão pouco tempo

As luzes da cidade piscam em minha janela
Seus pés frios me acordam de madrugada
Os problemas embaralham minha mente
Oh não, não, não

Há muita gente para pouco espaço
Acho que fiquei louco
Virei um garotinho perdido na cidade grande
O que é isso?

Pessoas me pedem o que não posso mais fazer
Minha família está há muito tempo esquecida
Quando foi que transamos pela última vez?
Você quer um filho, mas eu só penso em ir pra casa

Vamos, vamos, vamos
O telefone está tocando
Treze mensagens em apenas dois minutos
Por favor, me diga que isso é passageiro

Eu ando esquecido demais
são tantos problemas, trabalho
lamentação

Eu ando triste demais
essa cidade era o meu sonho
mas, querida
isso não se tornou um pesadelo?
O que nós estamos fazendo das nossas vidas?



Eu fui o último a chegar. Mas também fui o último a sair.

Copos, garrafas, música alta, corpos nus. Aqui, eu sou o velho conhecido de dezenas de rostos desconhecidos. Nunca falei com esse pessoal. E eles raramente falam comigo. A verdade é que, num mundo tão problemático, nós somos apenas algum tipo de efeito colateral. Ninguém se importa. Ninguém nunca se importou. 

Três e meia da manhã, e eu já estou conseguindo esquecer do meu próprio nome. Não sei quantas doses eu tomei, mas sei que, numa escala de 0 à 10, eu devo estar muito louco. Pra mim tanto faz. 

Aquela morena ali do lado deu mole. Vem morena, vem provar um pouco do meu veneno. 

...

Cheguei em casa, já estava amanhecendo. Pisei na ponta dos pés, abri e fechei a porta com cuidado, mas, ao passar pela sala, acabei esbarrando em alguma coisa idiota que se materializou no meu caminho, assim, do nada. Até tentei ficar sem respirar por alguns minutos, mas as minhas chaves ainda estavam fazendo barulho em algum lugar do meu bolso. Então tu acordou. Acho que acordou, não sei.

...

Uma súbita dor de cabeça me fez perder a noção do tempo. Era impossível saber se eu ainda estava naquele maldito lugar, ou se o estofado abaixo de mim era o de minha casa. Adormeci. 

...

Quando dei por mim, eu estava caído no sofá com as pernas abertas. Minha boca tinha um gosto ruim. Muito ruim. Meus olhos ardiam, e o meu nariz estava pegando fogo. Você estava na poltrona, uma xícara de café na mão, a outra no encosto. Sua cara estava amarrada. Sabe aquela cara que as pessoas fazem quando querem espantar um urso raivoso? Pois é. Arfei.  

O que foi que eu fiz?

— Você bebeu de novo Marcelo? Onde tu tava? Onde tu tava Marcelo? 

—  Hmmm.. não. Eu estava... eu tava... 

Acho que te decepcionei. Não sei. Era difícil pensar, entende? Antes que eu pudesse terminar,  você revirou os olhos, pediu para eu calar a boca. Sim. Você estava decepcionada. Mais uma vez. 

—  Júlia... 

— Não! Eu não quero ouvir. Mas sabe de uma coisa? Eu só.. eu só queria entender porque você é tão autodestrutivo, Marcelo. Qual foi a última vez que você fez alguma coisa certa? 

— Ontem. Quando eu disse que te amava. 

— Por que você acha que eu ainda estou aqui? 

— Qual foi a última vez que você me olhou nos olhos, Júlia? 

— Quando você me bateu. Na semana passada. 

Pronto. Tocamos naquele assunto. Aquele maldito assunto. 

Semana passada foi difícil. O vício me fez perder a cabeça, eu sei. Mais uma vez, tive que passar por cima de todas as coisas que eu acreditava. Você tentou cuidar de mim. Tentou conversar, tentou dizer que eu só estava passando por um momento difícil... que iria passar. Mas meu coração batia tão depressa! Eu estava suando. Minhas mãos tremiam. 

Então você tentou me abraçar. Por um momento, um breve momento, achei que estava ficando louco. Então te dei um tapa. Você caiu no chão. Eu saí correndo, de pura vergonha. 

— Eu te pedi desculpas! Tu sabe, Júlia. Eu não sou um cara agressivo... eu nunca...

— Todos caras dizem isso. 

— Será que nós podemos recomeçar? Sabe... esquecer. 

Você ficou quieta. Por um momento, achei que aquele silêncio todo iria nos matar. Mas não. 

— A noite foi boa ontem, Marcelo? Ela pelo menos era bonita? 

— Mas que porra... 

— Tudo bem. Tudo bem. Eu não quero entrar nesse assunto. Eu preciso ir trabalhar. E você... vê se toma um banho, tá legal? A casa tá fedendo. E... não sai hoje. Por favor. 

Fiquei quieto. Você se levantou e deixou a xícara no meio da mesinha de centro. Olhando assim, de longe, até que o seu corpo tava inteiro. Ah Júlia... o que foi que eu fiz? Eu tenho uma mulher gostosa em casa. Muito gostosa. O que eu tô fazendo da minha vida? 
Carteiras vazias



Ainda lembro daquele primeiro beijo. Ainda lembro da sua boca contra a minha, e daquele sorriso que se formou em seus lábios enquanto eu falava algo pervertido. Eu sei que você não se lembra, mas eu lembro. Eu lembro daquela sala vazia, e de todas aquelas carteiras brancas, desarrumadas. Eu lembro do medo e do desejo que queimavam o meu peito, se espalhando lentamente pelo corpo. Sabe do que mais eu lembro? Lembro das suas sobrancelhas erguidas quando eu fugi dos seus lábios pela primeira vez... eu sei que aquilo se tornaria uma brincadeira nossa - algo que você odiaria mais tarde - mas, naquele momento, lembro que o meu coração ardeu de alegria.

Aquele fim de tarde, aquela manhã no terminal. Uma sandália quebrada, risadas pelo corredor. Olhares nas escadas, mordidas de lábios na janela. Minha cabeça no seu ombro, um lamento vindo do fundo do peito. Uma tentativa de beijo roubado. "Desculpa, mas eu estou com ela". Seu mundo cheio de cor. Madrugadas alegres e muitas mensagens trocadas, chamadas pelo computador. Sofá. Medo, covardia, dor. Lágrimas que manchavam aquela sua velha camisa preta. Seu choro sentido pelo telefone. "Por que você fez aquilo? Você não sabe o quanto aquilo me magoou".

Lembranças. Você ao menos sabe? Você bagunçou o meu mundo. Fez com que eu desejasse ser melhor. Tive que encontrar um meio termo entre o fácil e o difícil. Minha cola, minha tesoura, minha válvula de escape, meu sal. Meu positivo, meu negativo. E, apesar de ter sido tudo isso, não foi nada. Entende o que eu quero dizer?

Eu tentei mostrar o que eu tinha de melhor. Queria mudar para que eu pudesse transformar o seu mundo - assim como você transformou o meu. Mas foi impossível. Foi impossível me desapegar do passado, esquecer certas lembranças. E isso acabou com tudo. Acabou comigo. Acabou conosco. E sabe do que me lembro, então? Eu lembro que isso fez com que a nossa história nunca terminasse. Nós éramos amantes, e não namoradas. E é exatamente disso que eu me arrependo - eu nunca cheguei a dizer aquelas três palavrinhas... e elas ficaram aqui dentro de mim por muito tempo. Muito, muito tempo. 

Três tentativas. O seu coração partido por duas vezes. Eu me quebrando por inteira naquela sexta-feira. O sol se escondendo de mim, a rua vazia... e eu não conseguia entender. Tive que te deixar para que todas essas coisas ficassem no passado. Tive que esmagar os meus sentimentos com as minhas próprias mãos - tive que provar do meu próprio veneno.

Porque você... você enfim se rendeu. Você encontrou um novo amor. Você encontrou alguém que te amasse acima de todas essas coisas. E, agora, você está sentindo por ela todas as coisas que um dia eu senti por você.

Estou mundo melancólica, não é? Tudo bem, eu fico assim ás vezes. Enfim, eu gostaria de dizer que, se um dia você voltar para aquelas carteiras vazias, lembre-se do que tivemos. Você sabe, deixei algumas partes de mim lá dentro, e se por acaso você as achar, deixe-as onde estão. Elas não são mais úteis.