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Perca o controle



Invada minha mente
Revire meu coração
Vá, vá em frente
Você sabe que já fez isso outras vezes
Sim, você sabe que fez

Beije minha boca
Sugue o meu ar
Vá, vá em frente
Eu estou lhe dando tudo
Pegue tudo o que é meu

Puxe o meu cabelo
Possua o meu corpo
Faça o que quiser comigo
Perca o controle
Sim, perca o controle

Você pode ver através de mim?
Não há mais nada que não possamos ter
Ou construir
Você percebe como eu posso manter você?
Bem vindo ao meu jogo sujo

Você corre em minhas veias
Enquanto eu habito o seu pulmão
Chega a ser estranho
Eu respiro o seu ar
Mas é você quem suga minha energia

Vá, vá em frente
Agora vá em frente
Pegue tudo o que é meu
Possua o meu corpo
Ele é seu
Você pode viver com isso?



Eu poderia contar qualquer mentira para você
poderia fazer você esperar por mim
poderia fazer você me amar um pouco mais
mas eu preferi contar a verdade

Vai ser mais difícil assim
eu sei, eu sei
mas chegamos naquele momento
em que eu quero ir pra casa e você quer ficar um pouco mais

Eu não estou presa nisso
não, não como você
eu preciso de espaço, preciso de tempo
posso viver sem você, essa é a verdade

E você?
Pode viver com isso?

Eu não sou o que você precisa
eu não sou o que você idealiza
e de alguma maneira estranha
eu sei que você sempre soube disso

Essa realidade é fria como os meus lábios
que percorreram sua pele
naquela noite quente e cinzenta
e tudo já me parece tão distante, tão distante

E quando eu for embora
quanto tempo você irá suportar?
quanto tempo você irá me esperar?
quanto tempo até enlouquecer?

Quantas vezes chamará pelo meu nome
enquanto prova o gosto
de uma garota qualquer?
Você dever(ia) saber



1:30
O passado passa por minha porta
Uma brisa de memórias
Não sei se posso suportar isso
Eu sei que você deve estar me odiando agora
Por tudo aquilo que eu ainda não lhe disse

Você deveria saber
Que eu gostaria de ter te abraçado
Dito que aquilo tudo era novo para mim
E então eu teria plantado um beijo em seus lábios
Uma pequena semente
Contendo todo o meu amor

2:30
Ainda tenho o número do seu telefone
É como se você ainda estivesse aqui
Rindo do meu ciúme desenfreado
Você sempre soube como me animar
Mesmo nos piores momentos

Você deveria saber
Que eu queria ter ficado
Dito que estava pronta para arriscar tudo
Pronta para encarar meus medos
Então seria fácil
Relembrar pelo que nós estávamos lutando

3:30
Acho que estou ficando louca
Ouço sua voz no escuro
Seus lábios tocam o meu rosto
Minhas mãos voam para seu pescoço
Será que você pode ficar um pouco mais?

Você deveria saber
Que eu nunca vou esquecer o que tivemos
Vou levar o passado, guardado
Porque, você sabe
Isso é tão forte e tão fraco
A conversa que nunca tivemos



 — Numa escala de zero a dez, o quão ruim foi?
                 — A gente não precisa... ter essa conversa.
                 Revirei os olhos. Depois de uma noite de sono péssima, tudo o que eu precisava era da verdade. Minhas mão ainda estavam tremendo. Por que isso estava acontecendo?
                 — A gente não pode simplesmente esquecer que aquilo tudo aconteceu? - ela voltou a dizer. — Seria melhor.
                 — Então você quer dizer que, apesar daquela catástrofe, eu ainda posso ter uma chance com você? Porque é isso que eu quero.
Silêncio.
— Você me deixa confuso. Você é fofa e atenciosa num momento, e, no outro, parece que estou te enchendo. Sabe... ultrapassando os seus limites - respiro fundo, pronto para o xeque-mate. — O que você quer de mim?
— A gente só deveria ir... com calma. Entende? 
— Eu estou indo com calma. 
— Ontem você disse que gostaria de me ver todos os dias e...
Definitivamente, não. 
— Não foi assim... - respiro fundo, arfando. — Todas as garotas esperam ansiosamente por uma mensagem depois do... primeiro encontro. Mas o nosso foi tão... 
— Estranho? 
— Estranho. - fecho os olhos por dois segundos. — E aí, você ficou quieta. E eu mandei a mensagem. - repuxo os lábios, a raiva subindo por minha garganta. — E, no dia seguinte, você fingiu que nada aconteceu. 
— Nós não temos nada!
— Mas eu gostaria de ter. Um dia. 
Silêncio. 
Silêncio. 
Resolvo falar. 
— Olha, eu não tenho tempo nem idade para joguinhos. Eu estou numa fase que... quero estabilidade. Alguém do meu lado. 
Ela continua quieta. 
— Quer saber? 
— Quero. 
— Eu deveria ter te beijado assim que te vi. Ter pego na sua mão logo que entramos no bar. Ter dito que você estava linda com aquela blusa... ter feito tudo sem medo, sem timidez... 
— Sem tremedeira. 
— Sem acabar com tudo.  
— Mas você não fez nada disso. 
— Eu não sou uma propaganda enganosa. 
Silêncio. Desconfortável, ela se remexe na cadeira. 
— Eu não gosto de planos. 
BOOOM. Está aí a minha verdade. 
Acho que ela percebeu que fiquei desconfortável. 
— Você é uma gracinha. 
Terceiro erro. 
— Obrigado. 
Mais uma longa pausa. Silêncio insuportável. 
— O que você vai fazer hoje? 
— Você disse que não gosta de planos. 
— Ninguém aqui está fazendo planos. 
— Ainda. 
no image




Sempre te esperei com a porta aberta
Porque toda vez que você ia embora
Eu achava que seria mais fácil te aceitar
Do que encarar a solidão
E todas as vezes que você jogou fora o meu amor
Eu acreditei em você porque
Era mais fácil mentir
Dizendo que tudo havia mudado

Talvez eu precise te lembrar daqueles tempos
Porque você era tudo o que eu queria
Mas você sempre esteve do lado oposto
Desse estranho labirinto
Quantas chances mais podemos ter?
Eu estou tão cansada
E agora parece ser tarde demais
Para você propor qualquer mudança

Por muito tempo eu tive que juntar os pedaços
Da bagunça que nós fizemos
E agora você me quer de volta
Como se tudo fosse fácil
Como se eu não tivesse te aceitado tantas vezes
Bom, agora é tarde demais
Poderia ter sido fácil
Você só precisava me amar
no image


Manuel gostava de criticar Luciana sempre que ela roía suas unhas. Mas não era só isso. Ele também odiava o jeito como ela andava, e, entre um copo e outro, gostava de soltar comentários maldosos sobre como ela se vestia. Luciana ficava quieta – era daquelas que não gostavam de discutir. Saia de perto, fingia não ouvir.

Eles brigavam muito. Quando ele deixava algo cair no chão, ela gostava de sorrir ironicamente enquanto balançava a cabeça em sinal de reprovação. Mas, quando ela dizia algo errado, ele baforava com força, transbordando de raiva por ela não saber a pronúncia certa de alguma palavra. E mesmo quando tudo estava bem, em ordem, um dos dois arranjava alguma desculpa para que as coisas não se acertassem – Luciana nunca deixaria Manuel ganhar; ele tampouco. 

Para o mundo eles eram o casal perfeito. Quando estavam em público, sorriam e contavam piadas inteligentes sobre os males sociedade. Mas será que ela conseguia mesmo disfarçar os problemas? Nessas horas, sentada em algum canto, Luciana se perguntava como é que um dia amou aquele homem que, hoje, lhe dizia como arrumar a mesa. E Manuel? Vivia se questionando porque casou com uma mulher tão complicada. 

Certo dia, no ponto de ônibus, os dois tiveram uma discussão um tanto quanto peculiar. “Você acabou de falar ‘dagrão’”, disse Manuel entre tragadas. “Dagrão!”. Luciana revirou os olhos, e tentou puxar na memória o momento exato em que isso aconteceu. Mas não conseguiu. Anos antes, três meses depois de se conhecerem, eles fizeram um pacto: Manuel teria permissão de alertá-la quando ela exagerasse nas piadas ou no mau uso português. Mas ele estava passando do limites! Ela nunca falaria “dagrão”. Ou falaria? 

A questão é que os dois estavam sempre em pé de guerra. Se ele tentasse mexer nos cabelos dela, ela dizia que estava cansada e que sim, essa atitude colocaria em risco o seu novo tratamento capilar. Ele não entendia. Em vez tentar, subjugava toda a força da mulher, despejando tarefas e teorias de como os adultos não sabiam amar. 

13 de abril e os dois decidiram comemorar, pela primeira vez em anos, o aniversário de casamento dos dois. Foram em um restaurante cuja especialidade era salmão cru ao molho shoyo. Diferente, exótico. Com um vestido preto e um salto alto elegante, Luciana se sentou e logo fez seu pedido. Manuel demorou mais um pouco, porque, enquanto bebia seu scotch e se inclinava para frente para ver os belos seios da mulher, ele gesticulava suas mãos gordas e dizia “Por que deixamos isso acontecer? Por que eu nunca percebi que tinha uma mulher linda ao meu lado?”

O sorriso de Manuel anunciou que os dois teriam uma noite daquelas. Eles comeram, conversaram, flertaram. “Adoro quando você me provoca”, disse ele numa voz sexy. Luciana não escutava esse timbre há anos! E então, quando ela percebeu para onde ele estava olhando, tratou de desviar os olhos, fazendo charme. Mas aí... aí a conta chegou. A pausa para a dramática burocracia, o silêncio destruidor de lares. O encanto se quebrou e trouxe os dois de volta para a mesa quadrada, onde os problemas existiam e as brigas eram parte da mobilha. 

Ah... o casamento. Deve ser isso o que acontece quando duas pessoas tão diferentes se atraem: o imã dura só por alguns anos, mas, com o tempo, ele tende a se desgastar. Eles cansaram. Cansaram de tentar e estão apenas dançando conforme a música. Até uma terceira pessoa aparecer.